Arquivo mensal: novembro 2016

A força das meninas no rock

Tá aí um assunto que sempre quis desenvolver mas me faltava um gancho: “o rock dos meninos” x “rock das meninas”. Porém, para escrever esse artigo com um mínimo de segurança, precisei de um tempo para entender o contexto da indústria em que essas garotas estão inseridas e, portanto, o atraso.

Nos quase 20 anos que faço parte dessa sub-cultura, sempre fiquei impressionado com a presença femininas nas bandas, seja nos vocais conduzindo a parada toda ou integrando em um grupo totalmente delas. Até hoje, acho que a participação das mulheres dá uma sutileza na sonoridade, mesmo em um gênero da pesada. Cria um estilo mais próprio (do próprio estilo) que o convencional, eu diria.

Querem exemplos do que eu estou falando? As Mercenárias, Breeders, Band of Susans, L7, Thee Headcoatees, Liz Phair, Space Rave, Elastica, Courtney Barnett, Blondie, Siouxsie and the Banshees, X-Ray Spex, Warpaint, Xmal Deutschland, PJ Harvey, Portishead, Drugstore, Goldfrapp, Medicine, Hole, etc.

Em contrapartida, há a vertente com  sonoridade e postura mais grotescos, que se assemelha a selvageria comum ao universo masculino mas, por se tratar de mulheres, surge aquele preconceito básico por conta da estrutura que nos privilegia. No entanto, conversar com mulheres muito boas no que fazem pela música, me ajuda muito a desconstruir esse paradigma que carreguei ao longo dos anos e, desta forma,  preferi conduzir o texto pela não segregação.

Uma delas, a Debora, me orientou bem nessa questão. Ela afirma que o cenário do rock ainda é muito machista e que as mulheres precisam se autoafirmar o tempo todo para terem o reconhecimento merecido. E mandou seu recado em alto e bom tom: “Parem de falar “música de menina” como algo pejorativo. E mulher não é enfeite de palco, antes de julgar se as garotas da banda são gostosas ou não, ouçam o som como se fosse uma banda de caras qualquer. Música é pra todo mundo, e o rock também.”

Também temos a Deb que já integrou várias outras bandas do circuito underground. Durante sua trajetória, ela aponta uma melhora no cenário no que diz respeito à bandas de garotas. “Hoje em dia tem muitas meninas legais tocando, né? Já melhorou bastante. Mas como nesse meio a maioria são meninos, eu sinto uma desconfiança quando eu falo que canto em banda… que o som é mais alternativo. Se já me conhecem, essa desconfiança não existe. Mas se não, já imaginam que eu canto em um banda emo ou em algo mais bobinho.”

Entretanto, a realidade parece estar mais a favor para elas (o que não significa que não há resistência) pois hoje, temos mais conhecimento de mulheres que estão a frente do ativismo pela música. A própria Debora, comanda a festa Gimme Danger na noite paulistana e ainda tem o programa de rádio Debbie Records, onde coloca pra fritar sua coleção de vinis; a Fabiana que comanda o principal evento de mercado da música – SIM São Paulo – e também é a owner da agência Inker; a Mariângela com o selo Distúrbio Feminino e muitas outras arrebentando por aí.

Contudo, esse é o meu reconhecimento pelo trabalho dessas garotas e, mesmo com possíveis falhas (corrijam-me quando acontecer), atesto minha colaboração para a causa delas.

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O meu frustrado não comparecimento ao Music Wins Festival

Preciso falar desse festival que ocorreu em Buenos Aires, cidade a qual fui visitar por causa do dito cujo, que contou com a presença – entre várias bandas muito legais – do Brian Jonestown Massacre, Courtney Barnett e Mild Hild Club, que eram as atrações que eu mais queria assistir.

Bem, pra começar, maior confusão pra organizar a viagem. Ela só duraria 1 final de semana mas o processo de organização foi para imigração. Pedi grana emprestada aos meus pais, solicitei cartão de uso internacional no banco, fiz curso rápido de espanhol, reservei hotel (para temporada de feriado)….tudo na correria e sem pensar muito. Marinheiro de primeira viagem, né!?

Até que deu certo exceto pelos ingressos. Eu sei que poderia até solicitar um serviço extra de “conciérge” para a compra do bilhete, durante a confirmação da reserva no hotel, mas a grana e o tempo pra tudo era muito curto. Logo, decidi fazer tudo por conta.

Pra começar, o site da Ticketek não é muito funcional. Antes da compra, dei uma pesquisada rápida nas redes sociais e verifiquei que havia algumas reclamações contra a operação de pagamento e de logística. Até então, não dei muita importância porque pensava que era apenas um problema pontual, de fácil resolução.

Quando eu fui utilizar o serviço,  o calvário começou. O meu cartão era sempre recusado para a compra. Liguei na minha agência bancária, liguei na operadora do meu cartão, habilitei todos os serviços necessários para uma viagem internacional e nada. Detalhe que eu tinha, em crédito, o dobro do valor máximo do ingresso. E com esse cartão “problemático” eu usei o Uber e paguei a hospedagem.

Relatei o problema para a operadora e não me deram nenhum retorno. Comuniquei a produção do festival e eles me informaram que eu poderia comprá-lo na porta, no dia do evento. Entretanto, não me alertaram sobre a inviabilidade do pagamento no crédito. Pela lógica, pensei que eu poderia. Considerei que em quase todos os shows e festivais daqui é possível fazer essa opção e lá não seria diferente por ser uma alternativa comum de pagamento e, também, pela economia fodida deles. Pior que que a nossa.

Mas não pude. “Solo en cash y efectivo” foi a resposta da simpática bilheteira que trabalhava num sistema precário, dividindo um espaço minúsculo com a área de credenciamento da imprensa e demais convidados. E detalhe: ouvir isso depois de uma caminhada longa e mal sinalizada da estação de trem até o local.

Enfim, perdi as apresentações do festival e os alguns dos artistas que se apresentariam aqui, no meu retorno. Porém, ficou a experiência e a teimosia em insistir nessas aventuras em breve mas, dessa vez, com inclusão do serviço de conciérge.

 

O “Rockstory” na vida real

Outra paixão que carrego, além da música, é a televisão!!!! O aparelho é um item indispensável no lar para eu assistir e (re)assistir séries, filmes, cartoons e NOVELAS. Sim, camaradas, sou muito fã desde faz tempo.

Não vou detalhar os motivos porque gosto da teledramaturgia mas essa novela nova das 19h, Rockstory, me chamou a atenção por conta de uns detalhes “silenciosos” ou, talvez, “fictícios” que conduz a trama.

Por trás desse papo de sexo, drogas e rock’n roll, têm muitas festas descoladas, de gente endinheirada e muito pré-dispostas a fazer negócio com esse estilo “bruto” de viver. E não é só história. Basta observarmos a decoração das casas dos personagens principais da trama, seus carros e roupas, etc.

Sabem, esse ano participei de um evento chamado Casa Levis  – promovido pela grife – que contou com programação de música, moda e design. Ali, tudo ficou mais esclarecido como esse lance de música agrega muito para a criação de uma concepção de mercado. A referida marca já possui uma trajetória entre a nata do rock (ainda que, hoje em dia, sofra uma baita concorrência com outras mais novas) mas o que tem a ver arte e design nesse contexto?

Isso não é mais, apenas, uma análise de público alvo. As marcas apostam em vender um estilo de vida diferenciado, que nos destaca do senso comum. Algo mais ou menos assim: é criado um estereótipo “personalizado” de quem consome os produtos (no caso Levis) que, geralmente, são pessoas que vivem música, apreciam arte e moda, valorizam o bem estar e se destacam em ambientes de convívio social por “demonstrar” maiores aptidões para a criatividade.

Não acreditam? Basta observar a quantidade de empresas que têm ganhado espaços nos festivais de música como a Ray Ban, Doc Dog, Heineken, GM…entre outras. Ok, esse truque já é velho mas até onde sei, as  marcas nunca tiveram tanta sobreposição à arte como agora.

Daí, entra aquela discussão antiga “do cara que é de mili anos” perder o espaço para a galera que não curte mas que tem mais grana. Lógica do capital que, inclusive, proporciona modernidade. Complexo e delicado, não!? Entretanto, também penso da seguinte forma: esse mesmo processo estabelece a subcultura como uma cultura e isso coloca, de maneira seletiva, as “raízes” no processo de criação. Agora, (outro) problema é como você devolve isso para o meio de onde você saiu, quando está no auge. Processo difícil…

 

 

 

As discussões sobre o Pixies

 

O Pixies está dividindo opinões entre meus colegas. Uns acham que, desde o Indie City, a banda ficou ruim. Outros, do qual eu faço parte, acham que a banda se mantém em forma e que ficou até melhor. Uns acham que perdeu o sentido depois da saída da Kim Deal. Outros dizem que a nova baixista tá fazendo um ótimo trabalho e tá segurando o nome da banda… e por aí vai. Eles lançaram o novo “Head Carrier” e, desta vez, eu é quem vai falar dele, do retorno da banda e o que eu acho disso tudo.

O lançamento desse disco fez menos barulho que o anterior. Cheguei a baixar na internet e escutar na íntegra mas não me empolguei tanto em acrescentá-lo na coleção. Porém, como houve edição nacional em cd pela Voice Music, comprei uma cópia. Novamente, fui surpreendido. O disco pega bem no formato físico por conta do conjunto da obra. Pelo menos eu, percebi melhor a desconstrução sonora que a banda vem atravessando com intensidade desde o seu retorno.

Com certeza, a banda não é mais a mesma da década que os consagraram. O time mudou. Os integrantes mudaram de comportamento e o público da “cena” onde se apresentam também é outro. No “Indie City”, as mudanças são mais cruas. As composições têm uma atmosfera quase inédita – mais densa e obscura – e no novo, eles parecem mais estruturados e retomam um pouco as origens.  Porém, analisando toda a discografia, fiquei com a sensação que os discos atuais partiram da concepção do “Trompe Le Monde”, que só é compreensível após a audição dos anteriores “Come On Pilgrim”, “Surfer Rosa”, “Doolitle” e “Bossanova”. É como se cada disco tivesse um nível de graduação.

O retorno da banda

Eu até gostei da volta deles a partir do momento que eles se comprometeram a lançar algo novo (na época, o Indie City) e dessem um tempo daquelas aparições surpresas em festivais exóticos – que custavam uma fortuna – pra tocar o “Doolitle”. Quando divulgaram os singles inéditos e o lançamento do álbum, sinceramente, achei – o presunçoso, de alguma forma. Parecia que eles estavam lançando o disco por pressão pra não dispersar o a público. Entretanto, eles fizeram uma campanha dos videoclipes das músicas (então) novas e isso eu pirei. O cuidado com a estética do trabalho audiovisual fez com que eu ficasse atento ao novo caminho que o grupo está trilhando.

Por fim, todas essas dúvidas permearam até eu ver o show deles, em 2014. Quando os vi ao vivo no palco, saquei a força da identidade sonora que o conjunto tem e entendi o porque as pessoas são tão fãs deles. Em quase 30 anos de existência, até hoje, nunca ouvi banda alguma que soasse como eles, que lidam com minimalismos e complexidades, numa mesma canção, com tanta naturalidade e que brincam com a cronologia. Válido! Muito válido.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da série “Sensações” com Body/Head

#3

Sim, fechei a maratona com essa apresentação que, por pouco, quase deixei passar e explico o motivo: 2016 tá sendo um ano de muitos eventos para mim e estou tendo que selecionar a dedo, já que o meu bolso e meu corpo não comporta tantos acontecimentos seguidos. Além do mais, nunca tive tanto interesse musical na Kim Gordon ( AINDA sendo performance) e, também, ela não me cativa tanto como pessoa. Entretanto, se eu não tivesse ido, meu atestado de bom ouvinte musical seria reduzido ao saldo negativo.

A apresentação aconteceu no sábado (22) no teatro do Sesc Pinheiros e teve quase todas as cadeiras cheias. Logo na entrada, tinha uma aglomeração de pessoas comercializando ou trocando os ingressos. Sucesso absoluto mas acho que muitas delas estavam mais conectadas a imagem da Kim com o Sonic Youth do que com o trabalho performático –  muito ligado as artes visuais – que ela estaria prestes a mostrar. Eu sabia o que ia ver…só não sabia se ia digerir bem.

Ao entrar no palco, ela foi muito aplaudida. Deu pra perceber que ela estava a vontade com aquela recepção e que tudo sairia bem (como saiu). Ela e seu parceiro Bill Nace eram acompanhado de projeções caseiras de shows de bandas punks e achei que isso fosse um diálogo do tipo “aqui, vocês estão em nosso território”. Um amigo que estava comigo no show, era mais entendido das bandas hardcore e punk e tentava reconhecer os integrantes na gravação e, por causa disso, minha atenção ficou dividida entre o show e a projeção.

Bem, a garota da banda era quem conduzia aquela parafernália sonora toda: Guitarras altas, dissonâncias e distorções, reverbs. Tanto que por vários momentos, o acompanhante não olhava para a platéia e sim para a “showwoman” da festa…muito atento a cada expressão emitida através das notas para poder música-las com sua segunda guitarra. E a projeção só tornou tudo mais caótico e sujo, como nos princípios do punk rock.

Após todas essas observações, eis que vem o soco no estômago e na cara (…por isso, disse lá em cima que tinha que ter visto essa apresentação). A primeira vez que ouvi o Sonic Youth, em 1996, fiquei hipnotizado por aquelas guitarras estranhas…tortas; Aquele barulho ensurdecedor e, também, porque não era uma banda de quem só vestia roupa preta e era cabeludo. Aquele momento definiu tudo o que faço e muito do que sou hoje. Aí, lá no concerto, descubro que tudo isso que me cativou na banda há 20 anos, é obra dela!!!!! E não do Thurston ou de Lee, que sempre creditei mais…E ainda, o título da biografia dela faz todo o sentido.

Só tenho a dizer que nesses anos todos de fã da banda, com todos os discos oficiais na minha coleção e mais alguns dos trabalhos solos dos outros membros, de ter assistido há alguns shows de ambos, de ter conhecido o Lee…só tenho a dizer que essa foi a única vez que tive o contato com a fonte que gerou todo esse legado. Apenas acho que ela poderia se conectar mais com o público e ter assinado o meu exemplar da biografia dela. Já que não rolou, espero que ela curta alguma foto minha no Instagram. Pelo menos.