Arquivo mensal: janeiro 2016

Refinando o paladar…

Certa vez, na época da faculdade, um professor do curso de Gastronomia afirmou que “o hábito de comer está relacionado as lembranças” e essa afirmação nunca me fez tanto sentido como nos momentos atuais.

Com o meu interesse em conhecer novos aromas e sabores, participei de um evento de comida polonesa. Não conheço a cozinha típica deles mas, além da curiosidade em experimentar, a memória de um relacionamento com uma moça que descendia desse povo me estimulou a fazer o teste.

No processo de busca de informação sobre o atendimento aos convidados, descubro que a equipe da Pierogueria (que conduziria os trabalhos), oferece um serviço de buffet de comidas típicas polonesas para qualquer tipo de celebração. Depois, que a chef e também socióloga Vitória Jezierski, vem realizando esse trabalho como forma de manter as tradições que, segundo ela, vem se perdendo com o passar dos anos.

A refeição fora oferecida na House of Food, em Pinheiros, espaço com programação culinária variada, desenvolvida por novos chefs em ascensão e que, por oferecer cardápios “experimentais”, tem um preço popular. Com serviço de bar a parte, dá pra tomar umas cervejas artesanais ou uns sucos exóticos enquanto se espera a comida. Outro aspecto interessante é que as mesas são compartilhadas, proporcionando maior interação entre os presentes.

Embora eu não tenha conseguido experimentar o famoso “pierogui” – que acabou antes de chegar a minha vez na fila – valeu a experiência em conhecer a forma de atendimento da casa, me encorajando a enriquecer o meu humilde paladar. Além disso, graças a ocasião, fiquei sabendo por conversas paralelas dos estrangeiros que estavam a minha frente, que havia um restaurante nas redondezas, também de curadoria polonesa: o Maria Escaleira. Ainda não visitei mas logo em breve, estarei lá e conto o que achei.

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A relação conflituosa entre Bowie e eu

Não foi fácil começar a semana com a notícia de que David Bowie veio a falecer de câncer. (Claro que não!) Até porque, a vastidão de seu legado agradou a todos, de um jeito ou de outro, pelas suas atuações no cinema, pelos seus exóticos figurinos, pelas suas várias personalidades, pelas suas contribuições/colaborações com artistas de várias décadas, pelas concepções de cada álbum, etc, etc, etc…

Eu, mesmo, adoro qualquer coisa que ele fez que não fosse música. Não que acho sua técnica ruim mas nunca consegui acompanhar suas viagens sonoras. Nunca soube onde começara e onde terminaria. Nunca entendi tamanho assédio dos fãs e, ainda por cima, alguns discos da fase setentista dele – que o pessoal mais venera – acho que o Elton John fez melhor.

Acontece que, antes dele morrer, ele vai e me lança o tal do Blackstar. Eu já havia ouvido os singles e assistido aos videoclipes de algumas das faixas e aquilo me conectou com toda a sua complexidade artística. O filme de Blackstar, por exemplo, me imerge numa atmosfera pós apocalíptica que creio ser comum a todos primeiro pelas vários conflitos civis que ocorrem pelo mundo e segundo pelos filmes temáticos – e sucesso de bilheteria – tipo Star Wars ou Mad Max. Essa transitoriedade entre uma percepção mais erudita e pop é uma baita sacação de mestre.

Outra coisa que me chamou a atenção com esse disco foi a sua influência assumida pelo trabalho de Kendrick Lammar e Kanye West. Pode ser que tudo isso seja coincidência por eu estar acompanhando bastante esses dois caras mas acho que há uma sinergia enorme no contexto abordado aqui: o rap com suas críticas violentas as opressões + o futuro incerto de Bowie no disco novo = a reflexão sobre os rumos da humanidade.

Os fãs, muito provavelmente, me falariam que era exatamente isso que ele tenha feito em quase todos os álbuns e, acredito mesmo. Entretanto, nunca me explicaram isso com muita objetividade. Além do mais, não consigo formar conceitos pautados em questões de vida extraterrestre ou sobre alter-egos de cada ser humano. Acho muito levianos. Mas o disco novo, ele vai mais direto ao ponto, fazendo quase um apelo a essa problemática que estamos vivenciando.

E depois de quase 15 anos estudando o legado, incansavelmente, pra entender o porque que sua obra é tão importante, finalmente encontro o interesse necessário para revisitar todos os seus discos e deixar fruir suas composições em meu corpo, como o ar.

Muita paz, Bowie.

Novo do Tarantino é legal mas nem tanto

Assisti ao “Os Oito Odiados” (The Hateful Eight) e o achei curioso, apesar de sentir que esse não é o melhor filme do Quentin Tarantino. Embora ele seja um dos meus diretores preferidos e de ter vários/ todos os filmes dele, acho que no seu oitavo longa faltou capricho no desenrolar da história.

Compreendo que tal descaso, talvez, seja pela pressão do tempo para a entrega do produto, já que o referido filme tenha sido um plano B ao roteiro inicial que fora roubado mas, ao menos, poderia ter sido pensado o encurtamento do tempo, economizando as piadinhas da porta ou a massificação dos diálogos ofensivos.

Ok! Em alguns artigos que foram publicados na semana anterior, foi justificado que os diálogos racistas e sexistas no filme são reflexos do republicanismo – de forte representatividade até os dias atuais – que o diretor faz questão de explorar com muito sensacionalismo. Mas sabem aquele dito popular que diz que “tudo que é demais, estraga”? Pois é, desnecessário o excesso.

O enredo é pouco conciso por conta dos vários ganchos soltos. Os dialetos são muito contemporâneos para um filme de época (mesmo que moderna), as trajetórias dos oito personagens não se cruzam direito e faz a gente perder o fio da meada da narrativa. Entretanto, ele acertou na trilha sonora. Desta vez, parece que não deu tantos pitacos no trabalho do querido Enio Morricone como o fez na composição de Django, que quase o fez pedir demissão.

Falando das coisas boas, agora: Tarantino é Tarantino! A maneira como ele consegue manter essa estética de histórias em quadrinhos em seus filmes é digno de deslocamento até o cinema, de uns gastos extras de memória de HD, de MB pra download ou de uns reais na compra do dvd pirata. Além do mais, tem o fato do material ter sido rodado em Panavision 70mm que dá um realce na ambientação kitsch. A reviravolta dos personagens oprimidos continua forte e empolgante. Na sala (cheia para o primeiro dia do ano novo), tiveram várias ovações a respeito da prisioneira. No geral, recomendo a quem me perguntar.

Agora uma percepção pessoal: o fato da circulação da notícia de ele fazer apenas mais dois filmes, antes de encerrar sua carreira, e de Os Oito Odiados se apropriar evidentemente de recursos de diálogo muito comuns em séries televisivas – onde se quebra um discurso tenso com alguma passagem de humor – e também pelo fato do diretor ter escrito uma temporada para CSI, penso que ele venha a migrar seu talento das telonas para as telinhas. Afinal de contas, o processo de produção é mais simples e barato e tem sido a mais nova moda nos estúdios de Hollywood.